Ao escrever estas linhas, não quero ser Pastor, tampouco conselheiro, mas filho e pai, que quer mais testemunhar do que defender algo, ou ideal.
Pois é! Penso que estamos matando o boi, querendo acabar com o carrapato... será?
E se a intenção é mesmo matar o boi, com o argumento de acabar com o carrapato? E se o que estão querendo é uma ingerência estatal no seio da família? Ingerência esta dessas forças ocultas, que não se apresentam imediatamente, mas que trazem à tona suas reais intenções depois de estabelecidas?
Quantos pais e avós apanharam quando crianças? 99,9%! Sim, quase todos nós! Você também.
Quantos destes são traumatizados, mau caráteres, sem amor, violentos, inimigos da sociedade? Você é? Eu não sou!
Lembro-me bem das surras que levei de minha mãe. Como doeram! Como foram apropriadas! Algumas delas - hoje faço este julgamento sem ser o menino da época, sem motivo pra me defender agora - foram sem razão, despropositadas, simplesmente porque minha mãe se descontrolou, ou estava chateada por outra coisa... eu nem estava tão errado assim... consigo me lembrar de uma meia dúzia desses momentos. Mas não me desvirtuaram! Aliás, os limites que hoje conheço tem seu fundamento na braveza de minha mãe, a quem respeitei e respeito muito.
Meu pai nunca me bateu. Mas o olhar dele... Eu tinha medo dele, do papo dele, da cara feia dele, de saber que errando teria que conversar com ele, só dialogar. Com minha mãe, não! Ela é quem batia, e eu não tinha medo dela. Não queria apanhar, pois doía muito. Aliás, não sei porque ela usava aquela chinela havaiana de borracha e sempre pegava no mesmo lugar!! Como ficava vermelho! Mas eu não tinha medo dela! No final, amei os dois.
O vazio é mais perigoso que a ação! O que entrou no lugar da palmada? Diálogo. Tudo bem, a sociedade mudou e novos padrões estão se estabelecendo, mas o ser humano continua o mesmo: desde pequeno quererá seu espaço. É sabido que uma criança usa de todos os argumentos, legítimos ou não, para conseguir seus espaços. Muitos desses espaços ela tentará pela medição de forças, algumas vezes força física, mesmo sendo criança, quanto mais adolescente. É natural isso, o ser humano é assim!
Os pais não batem o tempo todo, aliás, com mínima frequência, nem querem, nem precisam. Porém, as crianças medem forças com os adultos na maioria das vezes, é o caminho da autoafirmação, do posicionamento, do reconhecimento.
A mão é dupla, gente!! Onde está a Lei que impedirá que as crianças usem de força física contra seus pais, contra os adultos? Aí, quando isto acontecer, vamos convidá-las a sentarem para dialogar... Elas dirão: "Nós podemos... vocês, não!"
Outra coisa, junto com a Lei poderia vir a aprovação do salário mínimo ideal, de mais de 2 mil Reais, pois onde está o tempo para os pais se sentarem com seus filhos em casa para dialogarem? Tudo bem, é só um desabafo!
Mas onde estão os programas educacionais? Muito poderia ser feito, se os impostos fossem bem alocados: praças, jogos, esportes, cultura, palestras, clínicas, mas é mais fácil matar o boi que o carrapato! Tudo bem, é só mais um desabafo... Acho que estou descrente da política.
Criamos a Lei da hipocrisia da palmada. Vejam o quadro: 99,9% apanharam. 99,9% batem nos filhos. Entre estes ninguém acusará o outro, ninguém será um X9... será? Então nos sobraram os 0,1%. Estarão com as câmeras nas mãos, gravadores ligados, por detrás de paredes, nos ônibus, nas praças, do outro lado dos muros das casas, nos restaurantes, serão os fiscais da Lei! A qualquer choro de criança, logo levantarão a cabeça, ligarão o radar, precisam provar que a coisa é séria. Serão a Gestapo Tupiniquim, serão um pé nas regiões baixas, saberão mais que os outros, mais que os pais, darão sermão, levantarão a voz, assobiarão, chamarão a polícia, alimentarão a mídia...
E aí? Talvez o princípio de Cristo caiba aqui: quem não tiver pecado, que venha prender os pecadores. Os 0,1 estarão legitimados para tanto.
Mas deixa eu me consertar: não sou a favor de bater! Sou a favor do diálogo. Não sou a favor desta Lei. Meus filhos sabem disso. Mas sabem também que a vara sabe conversar, que tem poder mágico! Tomara que me amem no final. Tomara que sejam pessoas de bem, sem traumas, que não explodam prédios nem ataquem escolas com rifles, por eu ter usado a vara, e continuarei usando se for preciso!
Acho que é só o princípio das dores, aliás, de quem?
Não concordo com a Lei nem com a música, pois tapinha dói sim, mas não vejo a sociedade deturpada por isso.
Vou fazer acusações levianas agora, mas não posso deixar de pensar nisso, preciso extravasar minhas ideias: Políticos corruptos não ficaram assim por terem apanhado dos pais, antes parece que não houve limites, que não levaram com a palmatória nas mãos, por isso é que pegam o alheio.
Certa vez, um dos meus meninos aprontou uma daquelas no supermercado, e levou umas palmadas; logo quietou-se. Um cliente olhando a minha "agressão" interferiu e me acusou de violento, que não precisava daquilo para se educar uma criança. Talvez! Então, me veio uma única resposta para o cidadão, nem sei se o destino faz assim, mas respondi: "Ele apanhou agora, pra não crescer sem regras e sem limites, para não vir a usar da própria força para conquistar as coisas, pra não ser desregrado quando adolescente e jovem, e para não vir a visitá-lo um dia com a arma na mão e tirar sua vida."
Depois fiquem pensando: "Nossa! Fui demasiado trágico. O homem estava somente preocupado com a integridade da criança... nenhum de nós saberia dizer o futuro do menino... Nem que ficaria traumatizado, nem que seria um desordeiro". Acho que ele não bateria num filho dele por aquilo. Talvez o filho dele nunca viesse a ficar traumatizado por isso, talvez nunca viesse a ser um desordeiro...
Fato é que princípios e práticas há muito existentes na sociedade deveriam ser melhor debatidos, e ampliadas as razões, para serem, assim, abolidos por Lei.
Acho que o Governo se equivocou, se precipitou, enxergou com o tampão dos cavalos, que impede ver ao lado. Tem muita gente boa envolvida nisso, poderiam ter feito melhor. Poderiam ter seguido outra via.
Mas ainda podemos fazer diferente.
Pr. Geraldo Santos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário